segunda-feira, outubro 01, 2012

Company Men (ou um post sobre a crise e as mentalidades)

*spoiler* Ora bem, o filme trata de um gestor de 37 anos (Ben Affleck), casado, dois filhos, mulher dona de casa, casa de 1 milhão de dólares e um Porsche, que, de repente e sem nada que o fizesse prever (ou havia mas ele ignorou), perde o emprego. Nos entretantos, e porque não conseguiu arranjar emprego em lado nenhum dado o pessoal só querer gestores acabados de sair da faculdade que trabalhassem mais horas por uma quantia menor, deixou de conseguir pagar as contas, vendeu o Porsche, vendeu a casa, mudou-se para casa dos pais com a mulher e as duas crianças, a mulher voltou a trabalhar e ele aceitou trabalhar com o cunhado na construção civil (até aí tudo bem, entre trabalhar com o Tommy Lee Jones - ex-chefe - e o Kevin Costner eu também escolheria a segunda hipótese).

O que me marcou neste filme foi o facto de o rapaz não ter qualquer poupança. Conseguiu viver os primeiros meses de desemprego com a indemnização da empresa mas depois kaputt, nada feito. Eu acredito que seja assim para a maioria das pessoas (diria mesmo uns 90%), mas eu, que sempre fui ensinada a poupar, não sei como conseguiria viver sossegada se não tivesse um pé de meia de lado (e, tanto quanto sei, a render - isto se o governo não tiver já implementado um imposto de 100% sobre os juros das aplicações). Acho que viveria em pânico e não conseguiria sequer pensar em ter filhos se não tivesse esse porquinho mealheiro e se visse que, mês após mês, gastava a totalidade do meu salário ou mais. E se perco o emprego? E se fico incapacitada? E se adoeço e preciso de gastar muito em tratamentos?

Sobre isto posso dar o exemplo de dois casais que conheço. Um desses casais ganha um pouco mais do que o outro e ambos compraram casa mais ou menos ao mesmo tempo. No entanto, enquanto o primeiro fez contas, pensou, refletiu na eventualidade de um deles perder o emprego e comprou uma casa mais modesta (T2+1) que podem pagar sem esforço, libertando-os, desta forma, para outras coisas que gostam de fazer (viajar, cinema, jantar fora, etc.) mas que podem muito bem deixar de fazer caso as contas apertem, o segundo casal (que, lembro, ganhava menos) meteu-se a comprar um T3 com áreas bem maiores e com uma mensalidade que não só os deixa esganados como não lhes dá margem para pouparem noutras coisas caso seja necessário, pois já não têm mais por onde cortar despesas.

O problema das pessoas é verem-se a ganhar bem (ou pelo menos certinho todos os meses) e iludirem-se que é para sempre e que a empresa ou o estado lhes deve isso. Ah e tal o meu chefe gosta de mim, se despedir alguém é a chata da Mariquinhas. Ou eu sou insubstituível. Ou eu sempre trabalhei muito bem, eles não me podem despedir sem mais nem menos. Esquecem-se é que não só não há pessoas insubstituíveis, como são substituíveis por alguém que trabalha mais, melhor e por menos dinheiro; que o código de trabalho vai permitir despedimentos com muita maior facilidade; e que muitas empresas não vão ter a possibilidade de escolher entre eles e a Mariquinhas para despedir porque provavelmente vão ter de despedir ambos.

Desses casais que descrevo em cima eu seria sempre o primeiro e tenho comigo alguém que é tanto, ou mais, consciente do que eu. Felizmente a vida corre bem e o dinheiro tem chegado e sobrado quer para outras coisas boas, quer para deixar umas coroas de lado, mas sei que se um dia não chegar, iremos ter juizinho e não vamos viver acima das nossas possibilidades. É que, caso não tenham reparado, o Estado anda a fazer isso há não sei quantos anos e olhem no que deu!


9 comentários:

Imperatriz Sissi disse...

Concordo. Acho que podendo, há que poupar sempre. Para uma eventualidade, para investimento...o mal muitas vezes são os salários baixíssimos que se praticam neste país, que levam a que muita gente não só não possa poupar, por mais espartana que seja, como jamais venha a adquirir esses hábitos - ou a transmiti-los aos filhos que arrisque ter.

stantans disse...

eu sou a pessoa mais poupada que conheço, chego mesmo a ser forreta. prefiro deixar de sair para ir ao cinema ou jantar fora para poder poupar mais uns trocos para a eventualidade de ficar sem emprego, que é uma coisa que me deixa em pânico

Anónimo disse...

Também sou como o casal 1 e também sou forreta mas tenho um marido que diz que é forreta mas gasta nas coisas que gosta como se fosse rico o que me deixa danada!

Analog Girl disse...

Subscrevo inteiramente este ost. Prefiro mil vezes ter margem monetária e ter uma casa mais apertada (mas cheia de imaginação para lá caber tudo) do que andar aflita todos os meses. Este ano tive dois ou três meses seguidos em que andei em tratamentos médicos e não me sobrava quase dinheiro nenhum ao fim do mês e já me estava a passar. Seria incapaz de viver assim...

C.C. disse...

Concordo plenamente. Há muita gente que gasta mais do que tem e depois vai-se queixar como se não tivesse culpa de ter dívidas,e a sensação que dá, nas observações do dia-a-dia é que quem tem menos acaba por gastar de forma mais inconsciente o dinheiro. Sou da opinião de que deveria ser ensinado nas escolas desde o 1º ciclo a gastar com juízo e a fazer poupanças.

Sílvia disse...

Concordo inteiramente com tudo. Sou jovem mas extremamente forreta, se calhar porque os meus pais sempre me ensinaram a poupar e a nunca viver acima das possibilidades.

Leonor disse...

Se todas as pessoas fossem assim talvez Portugal e a Europa não estivesse como está. Eu bem sei que há ordenados mínimos, escandalosos, mas pelo menos não gastar acima das suas possibilidades, como faziam os nossos avós e como me educaram os meus pais.

alpha L disse...

Concordo tanto contigo! Se toda a gente pensasse assim o país não estava como está. Eu sei que é a velha conversa da crise. Mas a verdade é que a crise vem muito (muito mesmo) do crédito mal parado... As instituições bancárias não recebem, cortam o crédito e com isso lixam as famílias e as empresas... E é um circulo vicioso! Se as instituições bancárias não tivessem andado a dar dinheiro à brava a conversa, hoje, seria outra!
Ah! E NINGUÉM é insubstituível... Outra coisa que as pessoas deviam ter presente...
(http://alpha-lady.blogspot.pt/)

Maria Costa disse...

Clap,clap,clap.
Muito bem dito.