NY
Às vezes lembro-me de NY. Da 5ª avenida e de a percorrer todos os dias. Do amontoado de gente em frente à árvore de Natal do Rockfeller Centre. Lembro-me de Times Square, das luzes a gritar, dos musicais mesmo à porta do hotel. Do Soho, ah o Soho dos prédios de ferro forjado, das lojas, dos restaurantes. De descer às caves falsas das lojas dos chineses para comprar carteiras, com aquela adrenalina de nos estarmos a meter em esconderijos com membros de gangs chineses. Da Miss Liberty a dizer-me adeus com o pôr do sol por trás e olhar para o lado e ver Manhattan a escurecer, a iluminar-se. De andar muito muito, das dores nas pernas curiosas, nos braços consumistas. Da vista do topo do Top of the Rock e do Empire a piscar-me o olho. Dos bagels de manhã e de queimar a boca nos lattes do Europan, das pizzas do John's e do almoço soalheiro no Finantial District com New Jersey a observar-nos do outro lado. Da meia-noite portuguesa e os beijinhos no quarto e da meia noite americana. Do meu breakdance em vestido de noite e da coroa brilhante de papel e gaita de festa na boca. Da X em coma do meu lado esquerdo e da Y e do Z a discutir e a agredirem-se do meu lado direito e dos americanos que vinham ter comigo e perguntavam "are they ok?". De andar uma hora debaixo de -10º a tentar parar taxis cheios, enquanto a X, ainda em coma, andava no meio das duas faixas de trânsito da rua 14 e de eu estar disposta a ir de Meatpacking District para Times Square num carrinho puxado a bicicleta, tal o desespero. De correr para o metro enquanto a Y corria atrás de mim, num vestido rosa de princesa e nuns saltos Nine West de 10 cm a dizer "amiga, espera, não consigo correr com estes saltos" e eu cada vez corria mais, consumida pelo frio. De conseguir dormir em hipotermia e acordar e rir muito da noite anterior e da A e do B que chegaram a casa com menos 100 dólares em taxi e a roupa toda vomitada. Do Mamma Mia e da voz da protagonista e das lágrimas que escorrerem pela cara de 4 jovens adultos quando ela cantou "The Winner Takes It All". De dançar muito no fim e cantar muito e sair de lá com um sorriso de orelha a orelha. Do Central Park e de correr atrás dos esquilos e de NY espelhada nos lagos. Dos cachorros a 2 dólares, pequenos e só com salsicha, primos distantes dos cachorros portugueses, cheios de batata, cebola, cenoura. Dos museus, de Andy Warhol e Roy Lichtenstein a abraçar-me, enquanto Picasso me puxava só para si. De Madison Square Garden a encher-se, dos jogadores de dois metros e de torcer pelos Knicks como se estivesse a torcer pelo meu Benfica. De gritar defense e offense como se ir ver os jogos da NBA fosse rotina de sexta-feira à noite. De andar e olhar e esquecer-me de fotografar porque o mais importante era viver o momento e não registá-lo. Mas sobretudo, da companhia, dos sorrisos, dos jantares, da confusão nos quartos, dos olhares, dos abraços, das expressões, dos beijos, dos amigos.
E num dia como hoje, em que se o trabalho já era pesado, mais pesado ficou, lembro-me disto e só me apetece sorrir.





